Mudanças Climáticas e Racismo Ambiental: Como Afetam o Recife?

Por ONG ETAPAS | Postado em , atualizado em: 11/05/2023, 13:25


Chuva no Recife (Reprodução – Redes Sociais)

Texto: Juliana Ribeiro (Etapas)

Desde às chuvas de maio de 2022 (maior catástrofe natural do século 21 em Pernambuco), a população recifense, principalmente moradores de periferia, vivem assombrados com a possibilidade de chuvas intensas no Estado. O que está acontecendo com o clima? Quais os impactos das mudanças climáticas? Por que as mudanças climáticas afetam desastrosamente a população periférica? Quais as possíveis soluções para diminuir os eventos extremos? Quais as responsabilidades do poder público?

Entrevistamos a facilitadora do Greenpeace Recife, pesquisadora pela união europeia, membra da comissão e refúgio da OAB PE, Camila Silva dos Santos, para entendermos essas questões.

Listamos algumas soluções socioambientais para o clima e eventos extremos no Brasil e na Região Metropolitana do Recife, algumas responsabilidades do poder público e soluções trazidas por jovens moradores do Ibura que participaram da Oficina sobre Mudanças Climáticas e Racismo Ambiental – Como Afetam a Região Metropolitana do Recife? promovida pela Etapas, com apoio de ActionAid e Bröt com facilitação do GreenPeace Recife, no mês de abril de 2023.

Etapas: O que está acontecendo com o clima? E quais os impactos dessas mudanças climáticas?

Camila: As mudanças climáticas são um processo natural da terra. É comum que a cada processo geológico, a gente tenha mudanças climáticas. A partir da revolução industrial, houve um processo de aceleração das mudanças climática por causa da poluição, do desenvolvimento industrial e da aceleração do capitalismo. São exemplos de aceleradores das mudanças climáticas: o desmatamento da Amazônia, a exploração de muito minério que ocasionou a tragédia da Vale- em Brumadinho (MG), a poluição dos oceanos, a pecuária que retira a floresta para fazer o pasto e acaba não tendo uma regeneração do ambiente, a exportação de madeira que não pensa em regenerar o lugar que foi degradado.

Os impactos das mudanças climáticas em curto prazo são o que vimos acontecer em maio 2022, chuvas torrenciais, alagamentos e mais de 100 óbitos na Região Metropolitana do Recife, dos quais a maioria estavam no Ibura.

Etapas: Por que as mudanças climáticas afetam desastrosamente a população periférica?

Camila: Os moradores de áreas periféricas (pobres, negros) são os mais afetados com as chuvas porque o governo pensa e gera soluções para as zonas elitizadas da cidade. As zonas de morro (zonas baixas com pontos alagáveis) que têm muitas enchentes e deslizamentos de morros não são vistas como prioridade. Daí vem o termo *Racismo Ambiental.

*Racismo ambiental é a discriminação racial na elaboração de políticas ambientais, na aplicação de regulamentos e leis, e no direcionamento deliberado de comunidades negras para instalações de lixo tóxico, com risco de vida em nossas comunidades e a exclusão de negros da liderança dos movimentos ecológicos.

Etapas: Quais as possíveis soluções para diminuir os eventos extremos?

Camila: Em recife temos uma *biodiversidade muito rica que é o mangue. O mangue é uma das vegetações que mais sequestra carbono na natureza. Ampliar as zonas de mangues ajudaria a diminuir a temperatura e o ambiente não ficaria tão quente, porque o mangue tira CO² da atmosfera, e suas raízes filtram muita água, com isso evitaria alagamentos.

Precisamos retomar o curso dos rios – como o Rio Tejipió, o Rio Beberibe e o Capibaribe. Quando os rios recuperam o curso natural eles param causar pontos de alagamentos /lixo e param de ser problemas para cidade. Precisamos criar sistemas de drenagens mais eficientes pela cidade.

A gente consegue diminuir o agravamento das mudanças climáticas com a regeneração da Amazônia, a regeneração de locais que as *biodiversidades foram perdidas. Isso só acontece se a gente tiver uma união do governo com políticas públicas específicas, a sociedade civil cobrando o governo e as universidades gerando pesquisas. Uma solução a longo prazo seria criar um laboratório climático.

*Biodiversidade
A biodiversidade, ou diversidade biológica, é o conjunto de todos os seres vivos existentes, o que inclui todas as plantas, animais e microrganismos da Terra. É justamente essa diversidade e a interação entre as diferentes espécies que torna nosso planeta habitável. (Fonte: GreenPeace Brasil)

Etapas: Quais as medidas que os governos precisam tomar?

Camila: O poder público precisa colocar a pauta socioambiental como prioridade. Precisa criar políticas públicas para os locais de morro e pontos de alagamento.
Precisa investir em pesquisa. Precisa capacitar pessoas que estão em pontos de riscos: criar uma população com maior entendimento socioambiental para que entendam que a preocupação com o meio ambiente faz parte da vida dela.

A medida que as cidades foram avançando a gente foi perdendo a flora (arvores) e a fauna (animais). Precisamos recuperar as biodiversidades dos biomas brasileiros (Cerrado/ Amazônia / Caatinga/ Pampa / Pantanal).

Precisamos falar sobre a importância da restinga: “aquele mato que fica na areia da praia impede o avanço do mar. Não pode ser retirado da areia. ”

O governo precisa tentar compreender com pesquisadores como podem melhorar as regiões. Nossa luta não é só para recuperar a biodiversidade, mas evitar que as pessoas morram no período chuvoso.

Cerca de 25 adolescentes e jovens moradores do Ibura participaram da Oficina sobre Mudanças Climáticas e Racismo ambiental – Como Afetam a Região Metropolitana do Recife?, promovida pela Etapas, com apoio de Bröt (Pão Para o Mundo) e ActionAid e facilitação do GreenPeace Recife, no mês de abril de 2023. A oficina faz parte do projeto “Jovens e Mulheres protagonistas pelo Direito à Cidade e Políticas Públicas” com o objetivo de promover formações e incidência política nas questões de meio ambiente e direito à cultura e ao lazer.

A facilitadora do GreenPeace, Camila Silva, trouxe as questões levantadas nesta entrevista para o grupo. A dinâmica do exercício trouxe as soluções dos jovens para o próprio território sobre Governança, Pessoas e Meio Ambiente:

Soluções dos adolescentes do Ibura

Governança:

• Criação de reuniões com as pessoas do bairro e o poder público (prefeito e governadora)
• Visita do poder público as localidades
• Criação de comitês para atendimento das demandas da comunidade

Pessoas:

• Organização de mutirões de limpeza
• Realização de outra oficinas, como a que eu fiz com eles, com frequência
• Reunião das pessoas afetadas para fazer estratégias de diálogo com o poder público

Meio Ambiente:

• Criação de um projeto para arrecadação de materiais recicláveis, para mães desempregadas da comunidade trabalharem com esses materiais. Gerando assim a sua fonte de renda
• Distribuição de ponto de coleta de recicláveis para a comunidade

• Oficina ensinando a fazer objetos para venda com materiais recicláveis
• Plantio de árvores
• Oficinas falando sobre o meio ambiente para a comunidade

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